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sexta-feira, 18 de junho de 2010

As Intermitências de Saramago


Saramago morreu?
Certamente o homem José faleceu junto dos seus de maneira tranquila e digna podendo se despedir daqueles que ama.
Já, Saramago, imortal em sua escrita, em suas idéias e reflexões tornou-se encantado, como publicou Alexandre Corrêa em seu blog.
Sua escrita encantadora que faz o leitor participar vivamente das angústias, reflexões, dúvidas, desejos e suspiros é marca viva da imortalidade de sua literatura.
Como não se inquietar com "Ensaio sobre a cegueira" em que uma cegueira branca como leite enclausura a todos e faz surgir todo o mal. "Ensaio sobre a lucidez" nos convoca a pensar nossas escolhas e a escolha de não escolher, por meio de uma eleição na qual votos em branco ultrapassam os limites aceitáveis da política e da legitimidade da representação pelo voto.
Já em "Intermitências da Morte" Saramago discute a morte. Uma cidade é acometida pela impossibilidade de seus cidadãos morrerem. O caos se instala. Doentes sofrem sem poder pensar no fim. Velhos chegam a exaustão. O desemprego atinge patamares insustentáveis, pois todo o sistema de funerárias, fundos de aposentadoria e o prórprio Estado chega ao colapso. Muitos descobrem que a impossibilidade de morrer só acomete o terrítório local, nas cidades vizinhas a morte é possível. Surge então um tráfico de velhos e doentes em busca de ultrapassar os limites da cidade para encontrar a morte. Um limite desejável e imprescindível para a vida ser possível.
O que falar do "Evangelho segundo Jesus Cristo"? Sem palavras!
Sem palavras diante da morte de uma escritor como Saramago.
Diante de um escritor que fornece palavras e cenas para a importante tarefa de pensar. Vejamos o que foi publicado hoje, dia de sua morte, em um de seus blogs - http://caderno.josesaramago.org/:

Junho 18, 2010 por Fundação José Saramago

Acho que na sociedade actual nos falta filosofia. Filosofia como espaço, lugar, método de refexão, que pode não ter um objectivo determinado, como a ciência, que avança para satisfazer objectivos. Falta-nos reflexão, pensar, precisamos do trabalho de pensar, e parece-me que, sem ideias, nao vamos a parte nenhuma".

A morte de Saramago chega em sua hora, aos 87 anos, sua obra recebe seu ponto final. Obra capaz de nomear o indizível e que permite pensar seus limites pois "Dentro de nós há uma coisa que não tem nome, essa coisa é o que somos" (Saramago; Ensaio sobre a Cegueira)

domingo, 23 de maio de 2010

Pulsão de Morte? Sim!

No Jornal do Brasil deste domingo tivemos uma matéria assinada pelo Prof. Dr. Haron Gamal (Literatura Brasileira UFRJ) sobre o livro de André Martins intitulado "Pulsão de Morte?". Uma crítica muito bem formulada que se serve da filosofia e dos fundamentos da psicanálise como vias de acesso para questionar a tese defendida no livro, sobre uma possível inexistência da pulsão de morte.
Pois, o que gostaria de ressaltar não diz respeito diretamente ao livro, cujo qual não li, mas ao impuxo atual de negar o conflito, as guerras, a violência e o ódio no cerne do laço social. Fala-se em harmonia (é só conferir o tema da semana nacional dos museus[1]), de uma dimensão não conflituosa nas relações heterogêneas, em um consenso que beira as famosas defesas neuróticas responsáveis pelo recalque, ou seja, pela negação do conflito e seu retorno substituto em um sintoma gozador. Gozação que produz vários imperativos e sofrimentos.
Há muito deixamos de crer na inocência infantil, no discurso vitimizado dos humilhados e ofendidos, em todo e qualquer discurso que tente mascarar a responsabilidade de cada singularidade naquilo que vive. Há desejo e por isso há inconsciente e há pulsão de morte! O ódio presente no laço social é a maior expressão da força da pulsão de morte.
O que dizer das cenas odiosas em nossa sociedade? São indícios importantes dos mecanismos de entrelaçamento do sujeito com o Outro pela via do ódio. A violência encenada aponta para significantes encarnados de ódio que sustentam as agressões que subjazem os sistemas paranóicos de controle social, assim como as eleições de um grupo que determina eliminar/odiar outro. Os exemplos são diariamente produzidos: o bullying nas escolas, as brigas entre gangues, as seitas religiosas que elegem o suicídio de seus membros, os conflitos religiosos legitimados pelo significante “guerra santa”, a eliminação dos chamados subversivos nos governos ditatoriais. Além das duas grandes guerras que produziram cicatrizes e marcas profundas. Atos e discursos[2] que se sustentam no laço engendrado pelo mandato da eliminação do outro grupo, pessoa ou idéia eleito a odiar/eliminar.
Odiar e eliminar são verbos conjugados com toda sua força em tempos de guerra, mais do que indicar o objeto a ser eliminado, o ódio funciona para o grupo que odeia como elo comum que sustenta o enlaçamento interno entre seus membros. Um exemplo pode ser pensado a partir da obra “A Dor” de Marguerite Duras. Um livro de memórias no qual o fim da segunda grande guerra toma a cena. Pela via literária, essa mulher lúcida, dá litoral às suas lembranças de juventude. Narra, não só o seu martírio e a esperança em ter de volta seu marido e seu amor, mas também o sofrimento de pais, mães, filhos e mulheres de desaparecidos. Além de escritora, Duras era Militante da Resistência e membro do Partido Comunista Francês. Funda um Serviço de Buscas para localizar desaparecidos de guerra. Filas enormes de parentes se formam para receber notícias ou os pertences dos desaparecidos. Uma dessas filas é formada por mulheres de desaparecidos judeus que reagem com indignação ao fato de um padre ter acolhido um órfão de pais nazistas. Duras percebe o conflito ali em jogo – de um lado viúvas judias recebendo os restos que denunciavam o horror do extermínio dos seus maridos e filhos, do outro lado o acolhimento àquele que descendia dos nazistas. Ela comenta: “Permitia-se perdoar, absolver, ali, imediatamente, ato contínuo, sem ter a mínima noção do ódio que imperava, terrível e bom, consolador como uma fé em Deus” (DURAS; 1986: 30). Um ódio que consola dá contorno à angústia, freia a devastação produzida pela guerra, pelo o que significa o ato do extermínio em massa e barra a invasão de uma barbárie que tem na morte uma meta (pura pulsão de morte!). Preservar o investimento na vida, principalmente nesse contexto social-histórico é fazer algo com o ódio que está no cerne do laço social. Negar a pulsão de morte é neutralizar a força também criadora quando a pulsão de vida consegue capturar a pulsão de morte e colocá-la a seu serviço.
Inúmeros escritos[3] sobre a guerra nos dão notícia de um laço social sustentado pelo ódio. Em Freud temos indicações sobre a complexidade do ódio e das pulsões cruéis e de destruição. Tais indicações fazem referência ao afeto de ódio como primeira modalidade de vínculo entre o sujeito e o outro. Em sua obra destinada a apresentar detalhadamente sua concepção da segunda tópica, “El yo y el ello” (1923), Freud nos fala do ódio como precursor do amor:
Nos está permitido sustituir la oposición entre las dos clases de pulsiones por la polaridad entre amor y odio. Hallar un representante del Eros no puede provocarnos perplejidad alguna; en cambio, nos contenta mucho que podamos pesquisar em la pulsión de destrucción, a la que el odio marca el camino, un subrogado de la pulsíon de muerte, tan difícil de asir. Ahora bien, la experiencia clínica nos enseña que el odio no solo es, con inesperada regularidad, el acompañante del amor (ambivalencia), no sólo es hartas veces su precursor em los vínculos entre los seres humanos, sino tambíen que, en las más diversas circunstancias, el odio se muda em amor y el amor en odio. (FREUD; 1923/2007: 44)
Tentar negar a pulsão de morte é fechar os olhos e os ouvidos para a angústia, para todo um endereçamento de questões importantes que ficam sem meios de trabalho para elaboração. É tamponar todo um saber que nos vem desde os gregos com o mito de Pandora, Aristóteles com a Retórica das Paixões, Descartes com as Paixões da Alma. É fazer de Freud um tolo perturbado, quando na verdade toda sua genialidade foi de ver o que era próprio do humano. É desconhecer o saber ancestral e popular que nos informa da dualidade entre os afetos de amor e ódio. O conceito lacaniano de amódio resume bem isso. Pior ainda é naturalizar aquilo que é simbólico! Digo isto a partir da experiência psicanalítica que me levou hoje em curso de doutorado a pesquisar o ódio nas paranóias persecutórias. É preciso não temer a investigação e um pensamento que leve em consideração a pulsão de morte. Fugir do inevitável enfraquece a potência da vida, mergulhando o sujeito no engodo de uma fantasia morta desde o princípio por ter abandonado a força da criação.
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[1] vide blog http://gpeculturais.blogspot.com/2010/04/museus-e-harmonia-social.html do antropólogo Alexandre Fernandes Corrêa.
[2] É importante ressaltar que ao elencar tais exemplos não os situo dentro de uma mesma problemática cuja especificidade e construção respondem a determinantes variados. O que chamo a atenção é que há um laço de ódio que posiciona de um lado um grupo que se define pela missão de agredir o outro, ou por que se sente perseguido ou porque deve perseguir.
[3] TOLSTOI (1865-69); FREUD (1915, 1923, 1932, 1938); DURAS (1986); ARENDT (1958, 1994).
Imagem: II Trionfo della morte

domingo, 16 de maio de 2010

RESUMOS EM CONGRESSOS 2010

IV CONGRESSO INTERNACIONAL DE PSICOPATOLOGIA FUNDAMENTAL

TEMA: O AMOR E SEUS TRANSTORNOS

TÍTULO DA MESA: O AMOR ENTRE O MAL, O ÓDIO E O MASOQUISMO

TÍTULO: As intermitências do amor na psicose

RESUMO: A análise de três fragmentos clínicos que encenam a “falha no amor” característica da psicose – Schreber e as injúrias de um Deus Maligno, Aimée e a passagem ao ato e Nijinsky na deriva de amor indiferenciado –, introduz a questão das implicações do ódio na construção da paranóia. Considerando que o ódio é, para Freud, anterior ao amor e que em Lacan, está situado entre o Real e o Imaginário – no ato fundador do sujeito e no lugar do gozo do Outro –, chegamos a duas acertivas lacanianas: 1. O ódio “é o que mais se aproxima do ser” (1955) e 2. Há na psicose uma “falha no amor” (1976) que produz um “amor morto” (1956). No caso da paranóia, o amor ressurge em sua face de ódio ao instaurar a dupla perseguido-perseguidor. Laço que produz efeitos significantes dando ao ódio uma função de, mesmo sendo expressão da pulsão de morte, estar a serviço da vida (Freud;1915). É através do ódio, por meio dos significantes que situam o investimento paranóico, que o sujeito produz um discurso delirante que pode, ou não, o conduzir à estabilização.
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III CONGRESSO BRASILEIRO PSICOLOGIA CIÊNCIA E PROFISSÃO
Título da Mesa Redonda: “A Ética da Psicanálise Posta à Prova: Situações Limite"
TÍTULO: A dimensão ética da psicanálise na escuta do ódio na clínica da psicose.

RESUMO: A experiência que compete à clínica psicanalítica da psicose é permeada de inúmeras apostas que se sustentam na ética da psicanálise e no desejo do psicanalista que, ao “secretariar o alienado”, aposta que há um sujeito na psicose e, conseqüentemente, deve assumir uma posição de “não ceder diante da psicose”. Além de uma aposta no sujeito na psicose, a ética do bem-dizer deve entrelaçar e sustentar a ética do desejo que responsabiliza o sujeito e seu desejo. A clínica sustentada pela psicanálise inaugura uma via para o delírio que, ao invés de ser silenciado pela psicofarmacologia, tem lugar de fala, inaugurando, portanto, uma dimensão ética para o sujeito psicótico. Um lugar de fala inclusive para o ódio, enraizado nas modalidades do gozo do Outro, que no auge da alienação invade o sujeito encarnado e materializado no objeto persecutório que lhe deseja todo o seu mal, o seu pior. A psicanálise é posta à prova em situações limite como essa que exige uma posição ética alicerçada no estofo teórico-clínico que faça valer o sujeito e seu desejo, sustentando inclusive o ódio como possibilidade do laço social, não cedendo diante da psicose e do ódio. A partir de vinhetas clínicas pretende-se problematizar os alcances e limites éticos na clínica da psicose quando o ódio como manifestação da pulsão de morte pode também servir à vida.

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VI SIMPÓSIO do
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM PSICANÁLISE
TEMA: Psicanálise, Universidade e Sociedade

TÍTULO: DO ÓDIO DA PSICOSE E DO LAÇO SOCIAL

RESUMO: Primeiras reflexões de um percurso de pesquisa inicial sobre as implicações do ódio na construção da paranóia na psicose, tendo como ponto de partida a noção lacaniana de Kakon (inimigo interior) explicitada em três momentos distintos de sua obra – dos crimes “imotivados” da paranóia (Lacan, 1938) à causalidade psíquica (1946) e à noção de agressividade (Lacan, 1948) – para problematizar a função do ódio, considerando a modalidade do laço social, na operação lógica da equação perseguido-perseguidor. O vetor da argumentação obedece a duas afirmações de Freud e de Lacan, sobre a anterioridade do ódio ao amor e a noção de amódio; respectivamente: “o ódio, sobretudo, conservando-se suprimido no inconsciente por ação do amor, desempenha um grande papel na patogênese da histeria e da paranoia” (Freud, 1909/1987: 137); e “(...) a psicose é uma espécie de falha no que concerne a realização daquilo que é chamado 'amor'. (Lacan, 1976:16). Essa falha, no que concerne ao amor, aponta para a linha que amarra o imaginário com o real, essa fenda do ódio, no qual não há mediatização simbólica possível que barre as figuras do mal, como os demônios, as bruxas, os feiticeiros e a malignidade de intenções e ações interpretadas assim pelo sujeito revelando um Outro sem perda, mortífero, sem Lei. Cabe ao sujeito assumir literalmente “o ódio, que é o que mais se aproxima do ser”, ao qual Lacan denomina de “ex-sistir” (Lacan, 1955/1966: 110) que se traduz pelo ódio primordial a toda alterização que implica a dialética alienação/separação. No campo dos discursos, que é o do laço social, o ódio se apresenta pelas vias da agressividade e da violência diante das figuras que encarnam o mal ou que apenas figuram índices da alteridade. Se o psicótico também é um sujeito dividido e se insere no quatros campos do discurso, o ódio no interior do laço social fornece subsídios para a construção da metáfora delirante, por viabilizar uma simbolização possível que compreende os investimentos do sujeito para dar conta da deriva atrelado a um Outro absoluto que goza dele. Pretende-se, portanto, questionar qual a relação que se pode estabelecer entre laço social e paranóia ao articular o ódio com um primeiro investimento do sujeito.

PALAVRAS-CHAVE: Paranoia, ódio, laço social

sábado, 13 de março de 2010

CIDADE COMO FENÔMENO CULTURAL

Gostaria de chamar a atenção para o tema da última palestra. Trata-se de um trabalho crítico e reflexivo que toca em questões importantes relacionadas às formações subjetivas e o fenômeno da cidade na atualidade. Uma publicação das palestras seria uma excelente política de circulação das ideias.
A mesa redonda do Eixo II – Cultura, Cidade e Cidadania da II Conferência Nacional de Cultura (CNC), realizada nesta sexta-feira no Centro de Eventos e Convenções Brasil 21, em Brasília, foi aberta pelo secretário de Cidadania Cultural do Ministério da Cultura, Célio Turino, que discorreu sobre o tema “Acesso, Acessibilidade e Direitos Culturais”. Para o secretário, direcionar esforços apenas à capacitação física de equipamentos culturais não é suficiente para garantir o acesso da população aos bens culturais. Utilizando a experiência dos Pontos de Cultura, programa lançado pelo Ministério da Cultura em 2005, como exemplo de política pública eficiente, Turino afirmou que “é preciso fortalecer a autonomia e estimular o protagonismo das comunidades”.
Mediada pela secretária municipal de Cultura do Estado do Rio de Janeiro e representante do Fórum Nacional de Secretários e Dirigentes de Cultura das Capitais e Regiões Metropolitanas, Jandira Feghali, a mesa contou também com a participação da jornalista Marta Porto. Tendo o tema “Memória e Transformação Social” como fio condutor de sua apresentação, Marta pontuou a memória como um reservatório de vivências do qual a arte e a cultura se nutrem. Para ela, o papel do gestor cultural é ampliar essa memória e esse repertório. “A cultura revela o espírito de um tempo, e, para isso, precisa de liberdade conceitual. É preciso apostar na multiplicidade das manifestações simbólicas, para que as experiências possam ser compartilhadas e enriquecidas”, afirmou.
O advogado e professor da Fundação Getúlio Vargas de São Paulo, Manoel Pereira dos Santos, contribuiu para o debate falando sobre “O Direito Autoral e os Seus Paradoxos no Século XXI”. Segundo ele, é preciso incentivar a criação e o desenvolvimento cultural, garantindo o acesso aos bens culturais, e não apenas superproteger o autor. “É preciso haver equilíbrio entre o autor e o direito da sociedade, já que ambos são fundamentais. O marco regulatório deve ser revisado”.
“A Cidade como Fenômeno Cultural” foi o tema explorado pelo professor da Universidade Federal do Maranhão, Alexandre Corrêa. “Atualmente, 80% das pessoas vivem nas cidades. A discussão hoje é sobre cidade e natureza, diferente da dicotomia entre urbano e rural”.(Sara Schuabb e Rachel Mortari/ MinC)

terça-feira, 2 de março de 2010

FOLHETIM - REVISTA DE PSICANÁLISE


Vale conferir a Revista Folhetim. Além de conter excelentes artigos, abre o acesso para inúmeros pesquisadores e interessados na psicanálise e em suas conexões. Segue um trecho do editorial assinado por Rosane Melo.
"A publicação anual do Fórum do Campo Lacaniano do Rio de Janeiro, Folhetim, está em andamento, e este oitavo número da revista será o segundo em formato digital. Desejamos que seu novo formato torne-o mais ágil, que alcance um número maior de leitores e constitua uma longa série"
Clique na imagem para acessar a revista.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

LABORATÓRIO II - NIJINSKY: O FAUNO

“A conformidade do pé de Nijinsky parece confirmar a teoria transformista; o pé deste bailarino, filho, neto e bisneto de bailarinos, não é construído anatomicamente como o dos outros sêres humanos. A sua estrutura aproxima-se da ave; quando dobra o pé, relativamente muito curto, fazendo sobressair o calcanhar, a extremidade deste está a uma distância quase igual do tornozelo e dos dedos. Esta distância excepcionalmente longa entre o tornozelo e o calcanhar é acompanhada evidentemente duma mesma proporção – ou desproporção, - do tendão de Aquiles, cujo tamanho condiciona as possibilidades de altura de salto. Estes pormenores foram revelados numa radiografia feita em 1916”(REISS; 1958).
Vaslav Nijinsky revolucionou a dança masculina moderna com seus "saltos felinos". Seu corpo, portador de pés-alados, aptos para uma revolução na dança, não pôde ser habito por Nijinsky. Aos 30 anos o bailarino russo já estava em sua Nau...
A psique funda-se nas marcas corporais. No caso de Nijinsky a dança viabilizou algum tipo de metaforização que ligava corpo e psique? O episódio mais significativo dessa relação ocorreu nos espetáculos do fauno. A referência à música de Claude Debussy - Prélude à L’après-midi d’un faune - obra escrita num espaço de dois anos (1892-1894), retrata de maneira perfeita a incorporação que Nijinsky demandava. Cito-a:
“Esta breve peça, quase reminiscente de música de câmara, com sua magia sonora envolvente para a qual concorre grandemente uma distribuição instrumental de sutis equilíbrios, tem o seu tema inicial em arabesco confiado à flauta. Semelhante a uma improvisação melancólica, ele resulta sempre em novas variações e paráfrases, interrompidas de quando em vez por curtos momentos rítmicos cheios de energia. Em tudo e por tudo trata-se de um casamento perfeito com o poema bucólico de Stéphane Mallarmé[1] sobre um fauno, dormitando no horário da siesta mediterrânea, que vai à caça de ninfas para depois, cansado e satisfeito, entregar-se de novo a um descanso letárgico. Contudo, ele não obteve reconhecimento mundial até ser coreografado por Vaslav Nijinsky em 1912 para os Balés russos de Serge Diaghilev”[2].
A música possui nove minutos e dois segundos de execução. Nijinsky realizou sua coreografia em doze minutos, estendendo em três sua leitura. Durante a apresentação, muitas foram as reações diante da criação deste bailarino. Ao final do espetáculo temos um fauno em cena masturbando-se como um animal que ao tentar acasalar não é satisfeito, procurando sozinho a descarga de excitação. No fechamento das cortinas, temos um homem em plena vivência pulsional, que por não ter encontrado representação possível, descarregou no corpo aquilo que a psique não mais suportava. Nijinsky, naquele instante de tempo, transformou-se em um fauno. Metonimicamente parece incorporar as cenas criadas no poema de Mallarmé e as encena no palco. Diaghilev rapidamente vai de encontro ao bailarino para se certificar do ocorrido. Encontra um bailarino exausto, ainda meio homem meio bicho. Cena de um processo de transição ou tradução do ocorrido, Nijinsky parece, neste momento, estar buscando significar, ou seja, metabolizar psiquicamente sua vivência. Transformar-se em fauno foi a saída para uma descarga, na carne, de uma energia libidinal que não encontrou caminhos metabolizáveis por sua psique. Este episódio único, no palco, despertou em Nijinsky a angústia de ser acometido pela mesma doença de seu irmão mais velho – a loucura.
Maribel Portinari nomeia este fato como “O Escândalo do Fauno”[3]. Além de conter este quiproquó, e que Fokine resumiu como “degenerada perversão” (FOKINE apud PORTINARI; 1989: 118), temos a atuação de Nijinsky em cena, oferecendo ao público tanto os seus “saltos felinos” reconhecidos como uma das peças de revigoramento do balé masculino, quanto uma dança na qual “os passos do fauno tinha algo de animalesco e sua perseguição às ninfas, que lhe escapam, terminava em masturbação sobre um véu perdido” (Portinari;1989:118). A reação a este corpo animalesco veio por parte do público e por parte do diretor da revista Le Figaro, que em editorial afirmou: “tivemos um fauno inconveniente com vis movimentos de bestialidade erótica e gestos despudorados. Justas vaias acolheram a excessiva pantomima desse corpo de bicho mal construído, horrendo de frente e mais horrendo de perfil. O verdadeiro público nunca aceitará esse realismo grotesco” (CALMETTE apud PORTINARI; 1989: 118. Grifo meu).
Enfatizei o palco por ser o lugar facilitador para Nijinsky de se comunicar, pois este corpo-psique encontrava na dança um elo, um sentido, um meio de comunicação que suprimia seu déficit com as palavras. Na perspectiva da obra de Aulagnier, o corpo é fundamental para pensar a escuta a qual nós, analistas, propomos, pois a psique faz um empréstimo ao modelo somático. A noção de corpo que a autora apresenta é um “conjunto de funções sensoriais, elas mesmas veículos de uma informação que não pode faltar por ser a condição da sobrevivência psíquica e somática... A relação psique-corpo tem sua origem no empréstimo que a primeira faz do modelo de atividade próprio ao segundo...”(Aulagnier; 1975: 21).
Pensando esta noção de corpo aliada à de sujeito, esta teorização pode responder a determinados impasses que se vivencia no processo de escuta do psicótico. Principalmente para tentar compreender, ou ter mais subsídios para melhor investigar uma sensação de vazio que surge, na situação analítica, decorrente de uma fala repleta de signos desarticulados sem sentido.
O que Nijinsky vê quando olha para o espelho? Diz ele:
“Construirei um teatro com uma forma redonda, como um olho. Gosto de olhar intimamente no espelho e vejo um olho só na minha testa” (Nijinsky; 1918).
Estamos diante de uma incapacidade de fugir do sofrimento, o que Aulagnier[4] chamou de impossibilidade material e libidinal para fazê-lo. O corpo de Nijinsky, vivido e habitado por tantas outras pessoas e animais, parece ser aquele corpo infantil que experimentou através da sensorialidade um contato com o mundo: “O Eu encontrou primeiro seu próprio espaço corporal como o representante metonímico desse espaço que nomeamos realidade...”(Aulagnier; 1990:71).
O corpo como fonte de sofrimento e somente enquanto tal pode aglutinar em si um poder de destruição, mortífero. Nijinsky faz uma equação interessante. Ao se deparar com um corpo que não consegue habitar, mas consegue permitir ser habitado por outrem, ele consegue erotizar seu sofrimento. E é assim que Nijinsky encena no corpo a cena poética de Mallarmé sobre o Fauno. Anos depois, a unidade corporal de Nijinsky será sustentada, não mais pela incorporação de um fauno, mas pela incorporação de Deus em um delírio.
[1] MALLARMÉ, Sthéfane. L’après-midi d’un faune. In: Oeuvres complètes. Paris: Gallimard, 1945. Segue logo abaixo uma tradução de Dante Milano deste poema.
[2] Encarte do CD de Claude Debussy, texto intitulado Imagens de Ondas, Nuvens e Seres Imaginários, com tradução de Roberto Travassos Vieira. P. 5.
[3] Título dado a passagem do seu livro no qual escreve sobre os acontecimentos em torno da criação coreográfica de Nijinsky de L’Après-Midi d’un Faune(1912), no livro: PORTINARI, Maribel. História da dança. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1989.
[4] AULAGNIER, Piera. A “filiação” persecutória. Op. cit. p. 69-81.

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MALLARMÉ

A SESTA DE UM FAUNO

Écloga

O FAUNO

Estas ninfas, eu quero perpetuar.
Tão leve.
O seu claro rubor que um volteio descreve
No ar dormente, denso de sono.
Amei um sonho?
À dúvida, montão de antiga noite; ponho
Fim, ao ver deste bosque a sutil ramaria
Provar-me que eu, na solidão, me oferecia
Em triunfo, aí de mim! a falta ideal de rosas.
Reflitamos...
Serão mulheres fabulosas
Que à exaltação dos teus sentidos atribuis?
Fauno, a ilusão se escapa dos olhos azuis
E frios, como fonte em prantos, da mais casta:
Toda suspiros, a outra, achas que ela contrasta
Qual brisa matinal quente no teu tosão?
Mas não! No lasso espasmo e na sufocação
Do calor, que a manhã combate, não murmura
Água se não a verte a minha flauta pura
De acordes irrorando o bosque; e o único vento
Pronto a exalar pelos dois tubos seu alento
Antes que em chuva árida espalhe os sons em fuga
É, no horizonte que não frisa uma só ruga,
O visível, sereno sopro artificial
Da inspiração, que ao céu retorna
Ó pantanal
Siciliano, cuja orla sossegada e vasta,
Rival dos sóis, a minha vaidade devasta,
Tácito, num florir de mil centelhas, CONTA:
“Que eu, um caniço aqui talhando, a flauta pronta,
Feita com arte, eis o ouro Glauco dos relvedos
Distantes dedicando a fontes seus vinhedos,
Ondeia uma brancura animal em repouso:
Ao alento preludiar do caniço, o gracioso
Vôo de cisnes, não! de náiades se assusta,
Foge ou mergulha...”
Tudo ferve na hora adusta,
Sem que se possa ver onde se esconderá
Tanto himeneu, cobiça de quem busca o lá:
Então despertarei, nos primeiros fervores,
Hirto e só, sob uma onda antiga de esplendores,
Lírios! e a um deles igual, a mesma ingenuidade.

Não o doce nada que de seus lábios se evade,
O beijo suave que perfídias assegura,
Meu peito, antes inatcto, atesta a mordedura
Misteriosa, devida a algum augusto dente;
Mas basta! arcano tal busca por confidente
O cálamo que sob o azul ressoa, quando
Da face para si a turbação desviando,
Sonha, num solo longo, ir assim distraindo;
A beleza em redor, a ela e a nós confundindo
Num engano que o nosso canto dissimula;
E fazer, no tom em que o amor se modula
Desvanecer-se do habitual sonho, de lado
Ou de costas, ao meu olhar semicerrado,
Uma sonora, vã e monótona linha.

Busca, pois, instrumento da fugas, maligna
Siringe, reflorir nos lagos, me aguardando!
Fero do meu rumor, continuarei falando
Dessas deusas; e, por idólatras pinturas,
Às suas sombras hei de arrancar as cinturas:
Assim das uvas ao sorver a claridade,
Para a mágoa banir fingindo alacridade,
Rindo ergo ao céu estivo o meu cacho vazio:
Soprando as peles luminosas me inebrio,
Até o anoitecer olhando através delas.

Ninfas, ressoprarei outras LEMBRANÇAS belas:
“Meu olhar dardejava, entre os juncos, um bando
De colos imortais seu ardor mergulhando
N´água, com gritos de ira até o céu da floresta;
No banho imergem-se as cabeleiras em festa
Entre frêmitos e brilhos, ó pedrarias!
Corro e duas surpreendo enlaçadas (pungia-as
O lânguido sabor do mal de serem duas),
Sonolentas, os braços soltos... e assim nuas
Eu as rapto, sem as desenlaçar, e em meio
A um maciço, da fútil sombra odiado, cheio
De rosas cujo aroma o sol ardendo inala,
A nossa festa ao dia incendido se iguala.”

Adoro a cólera das virgens, ó delícia
Feroz do sacro fardo nu que com malícia
Foge ao meu lábio em fogo ao absorver-lhe, tal
Um relâmpago, o íntimo frêmito carnal:
Dos pés da desumana ao coração da tímida
Entregando de vez sua inocência, úmida
De lágrimas e de menos tristes vapores.
“Meu crime foi, feliz de vencer os temores
Fingidos, apartar o tufo desgranhado
De beijos, que os deuses guardavam bem trançado:
Pois apenas fui ocultar um riso ardente
Entre as pregas sutis de uma delas (somente
Com um dedo a outro retendo, em seu candor de pluma,
Tingida do fervor que acende a irmã, nenhuma
Vergonha enrubescendo a ingênua, ao ver agrados)
De meus braços, por vagas mortes extenuados,
Aquela presa, eterna ingrata, se livraria,
Sem pena do soluço em que eu ébrio ofegava.”

Tanto faz! que ao prazer outras me arrastem pelos
Chifres atados às pontas dos seus cabelos:
Sabes, minha paixão, que purpúrea e madura
Cada romã explode e de abelhas murmura;
E o nosso sangue, a quem o atrai, se dá sem pejo
E fui com todo o enxame eterno do desejo.
Na hora em que o bosque de ouro e de cinzas se esmalta
Na folhagem extinta uma festa se exalta:
Etna! É sobre o teu chão, visitado por Vênus
Pousando em tua lava os brancos pés ingênuos,
Quando ronca um som triste ou a chama de acalma.
Agarro a deusa!
Ah, certo é o castigo...
Oh, não! a alma
De palavras vacante e este corpo indolente
Sucumbem ao torpor do meio-dia ardente:
Quero agora dormir, a blasfêmia olvidar,
E na areia jazendo, abrir a boca ao ar,
Do astro do vinho haurindo os raios eficazes!

Ninfas, adeus; vou ver vossas sombras fugazes.

(Tradução de Dante Milano)
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Na próxima postagem sobre Nijinsky, pretendo pontuar as cenas do poema de Mallarmé com a encenação do bailarino. Aqueles que quiserem participar deste exercício teórico estão convidados.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Sai no Brasil coletânea de textos do alemão Heinrich Heine


Vale conferir a matéria do Jornal do Brasil assinada por Paulo Bentancur sobre o lançamento de uma Coletânea de textos de Heine: Os Deuses do Inferno. Já encomendei!
"RIO - Quando se fala em clássico alemão, ainda mais em poeta, a palavra que nos vem imediatamente à cabeça é Goethe. Mas, e Heine (1797-1856)? Aos poucos ele vai sendo conhecido no Brasil e talvez esse quarto título seu – Os deuses no exílio – que é lançado agora numa edição, sem nenhum exagero, brilhante, definitivamente o ponha como referência da qual não podemos fugir.
Não foi à toa que a editora Iluminuras esmerou-se em organizar escritos diversos que, no fundo, tratam de um mesmo tema, quase obsessão heininiana. O destino das divindades antigas, que alimentavam mais um imaginário mitológico que teológico. Não havia um altar em cada casa, mas vários. E os deuses comportavam-se como os humanos, medindo forças, demonstrando vícios, apaixonando-se, vingando-se.
Nascido na Judeia, o cristianismo difundiu-se primeiro no Oriente. São Pedro foi o primeiro bispo de Roma, mas o apóstolo mais ativo da igreja cristã foi São Paulo, que divulgou ativamente as novas doutrinas na Ásia Menor, na Grécia (origem dos maiores protagonistas de Heine) e na Itália. Religião revelada, trazia um mártir. Antes dele, uma sucessão de épicos eventos marcavam de forma mais poetizada e impressionante o politeísmo dos gregos, sobretudo os liderados pela figura sobre-humana de Zeus.
Sobre-humanos eram todos, mas suas características eram mais de atletas que de miraculosos, mais de viciados em todos os pecados do que rigorosos senhores a nos nortear para longe dos desvios. Os deuses antigos, antes que o cristianismo chegasse e os tornasse a todos uma lenda, uma literatura de ficção, eram parceiros do homem com armas que os homens não tinham. E iluminavam as suas biografias sagradas com o brilho de ações estupendas que os faziam heróis, prodígios, mais milagres que milagreiros – mas nunca, jamais, santidades.
Essa natureza edulcorada e mártir, eivada de bondade, que o cristianismo esparge a partir de suas leis, é quase o oposto do que pregavam os deuses de que Heine fala. E mais: ele nem os ressuscita. Tenta flagrá-los (o que torna o livro uma aventura fantástica e uma poesia tomada de ironia) nos dias de hoje, espécies de mendigos, de monstruosidades, de seres deformados, de fantasmagorias que, se por um lado potencializam a mitificação e o imaginário, por outro lado esvaziam por completo o elemento teológico.
Falar, que é bom, nem pensar
Onde estarão os deuses agora, uma vez que perderam seu Olimpo e o território que lhes foi dado é uma terra habitada por seres precários pelos quais eles já nem podem fazer nada nem sequer parecem querer?
Estão por todo lado, não exatamente em qualquer lugar, mas em lugares especiais nos quais a violência da presença revela espanto, não esperança, revela inquietação, não fé, revela desconforto, jamais conforto.
Publicado em 1853, a primeira versão na França, na Revue des Deux Mondes (graças à brevidade dos textos), e semanas depois na Alemanha, Os deuses no exílio – essa visão desconcertante de entidades divinas que, na edição brasileira, tem organização de Marta Kawano e Márcio Suzuki – é uma espécie de testamento literário de Heine. E que testamento! Equivalente, sem dúvida, ao epitáfio dos epitáfios.
Os deuses, os lendários deuses, aqueles diante dos quais os homens pareciam nutrir-se de uma força extra, não estão mortos, mas extraviados. Estão sem um papel a cumprir. Seus poderes foram moralmente destituídos pela nova e predominante religião.
Esses deuses que inclusive traíam uns aos outros, deuses que tinham sexo e que, homens, cobiçavam deusas, não só fêmeas como exuberantes. Disso todos sabíamos. Mas depois, quando passou a época de ouro na qual eles resplandeciam, o que foi feito deles? Ficaram na memória para alimentar uma ficção que até hoje circula e impressiona.
Porém mais impressionante é o que Heine faz. Mostra o quanto eles são cativos de gestos, trovões, raios, voos, mergulhos, desaparições e aparições – porém, falar, que é bom, nem pensar.
Jesus, que era um grande orador, teria piedade deles. E como se não bastasse, não é preciso evocar o nome de Jesus. Tais deuses mudos, fenômenos poderosos mistos de animais, em alguns requisitos perdem para o próprio e limitado ser humano. O homem fala, ora, escreve, lê, e, quando cai na crueldade, é perseguido pela culpa.
Esses deuses hoje sem atmosfera, uma vez que não tiveram linguagem (nós é que a criamos para desenhá-los verbalmente), deixaram de memória o quanto eram manhosos (em estratégias mais de raposa que de jogador de xadrez), ignorantes (em que episódio da mitologia se vê um viés psicológico de algum deles?) e implacáveis, malvados, como predadores.
Ruiu seu mundo substituído por outro. E o homem aprendeu que no máximo eram inimigos perigosos, diante dos quais era preciso estar armado. Não deixam de ser simpáticos – na comparação com as intocáveis e politizadas religiões contemporâneas – e simples. E estavam mais próximos de nós. Por isso, ainda andam por aí, nalguma calçada, metamorfoseados em rebotalhos que o mundo atual, virtual inclusive, ignora. Quem não sabe falar (e eles não sabiam) quase não passa de prestidigitador. E isso é puro truque que, com o tempo, vamos desmontando. Até mesmo com poesia, como fez Heine:“Ali está Krónos, o rei do céu, /As madeixas brancas como neve, /As famosas madeixas que fazem estremecer o Olimpo. /Ele mantém na mão o relâmpago apagado. /Em seu rosto há infortúnio e desgosto, /E no entanto sempre o antigo orgulho”.
Continuará a lenda que se tornou verdade. Porém, a verdade, revelada pelo poeta alemão, é dilacerante, humaniza os antigos deuses e simultaneamente arranca-lhes a máscara hoje já não mais impressionante".

domingo, 14 de fevereiro de 2010

A ERA DOS IMPERATIVOS E A REGULAÇÃO DO PRAZER

Independente dos múltiplos significados e origens da festa de carnaval - seja do culto a Isis, passando pelas bacantes e Dionísio às comemorações demarcadas pelo calendário cristão que cumpre a função de limitar o excesso transgressor - é interessante pensar sobre o lugar e o tempo destinado ao prazer.
O sentido do prazer assume significações distintas no tempo e no espaço e operam deslocamentos significantes a partir do lugar e função na cultura. Pensar no prazer nos faz quase que automaticamente, pensar no sexual, no erótico e no fluxo do prazer e do gozo específico da excitação sexual. Mas não tiramos prazer e gozo só da relação sexual genitalizada.
Aquilo que antes era transgressor e até mesmo subversivo pode receber as vestes da norma. O imperativo, seja ele qual for, obriga o sujeito a se alienar no comando de outra instância reguladora para além de sua singularidade e possibilidade de escolher. Sim! É isso mesmo! Regulação do prazer, do gozo e do sentido dado a priori sem nenhuma elaboração como efeito de uma marca subjetiva. O imperativo goze! Transforma-se em obrigação, em signo de aceitação. Alegre-se! Signo do sucesso e da adaptação e até mesmo de saúde.
Se consultarmos os antropólogos eles nos dirão que em toda cultura e sociedade há o tempo da festa e da comemoração cumprindo uma função simbólica específica no campo ritual. Aqui abro um parêntese para indicar o blog http://gpeculturais.blogspot.com/ que apresenta algumas reflexões interessantes sobre o carnaval frugal. Contradição que já aponta ao cerne do que na atualidade faz operar a cultura.
Contudo, há um limite para a regulação externa. Há uma dimensão subjetiva que dialoga com a cultura e esse dialogo só pode fazer funcionar o investimento psíquico na construção de sentido se houver a participação do sujeito no quantum de investimento e de quais significantes farão parte de sua experiência. O imperativo para ser obedecido captura o investimento libidinal e demarca o prazer. Só investimos no que é prazeroso, mas também tiramos prazer de responder aos imperativos para receber em troca amor e reconhecimento. Assim, dependendo da submissão ao imperativo o sujeito pode sim erotizar o sofrimento.
Quais marcas deixar e quais marcas permitir ser inscritas em nós depende de um processo de identificação, de inscrições dialogadas. Diálogo travado com traços que nos fazem singulares e que seu itinerário é construído numa relação entre o sujeito dividido, o desejo e o objeto causa do desejo – objeto que possui um traço, uma marca, a chave do encanto – o que chamamos de fantasia.
Alguém muito especial perguntou: “Com que fantasia eu vou ao carnaval que você me convidou?” É uma questão interessante na era dos imperativos e da regulação do prazer. Qual fantasia assumir? Quem vai gozar? Subverter é um bom caminho...

domingo, 7 de fevereiro de 2010

O DIABO ENAMORADO


Existem variados encontros de um sujeito com uma obra: um romance, um poema, uma escultura, uma pintura, um livro científico, filosófico ou psicanalítico. Desse encontro, inusitados efeitos se produzem; dos mais formais como resenhas e comentários até os mais íntimos e privados que causam um silêncio estrondoso. Um percurso singular que depende do sujeito e da obra. O que cada um procura em seu caminho inquieto, faltante e desejoso aponta para o que vai ser encontrado. A obra parece ficar à espera, cuidadosamente posicionada para surgir nas mãos e diante dos olhos desse viajante que sempre chegará a seu destino.
Diante de uma questão, todo um itinerário é percorrido nessa viagem feita em busca da mensagem que a responderá. Mas uma vez decifrado o enigma, a esfinge apresenta outro ainda mais inquietante.
Existem ainda aqueles que jogam suas mensagens ao mar como um naufrago a procura, não do encontro singular, mas apenas de terra firme. O que queres? Alguém, qualquer um, portador das velas - que iluminam a escuridão do barco a deriva - e da segurança do destino. Dái resulta um não encontro, não há encontro entre duas singularidades quando só há necessidade. O naufrago só pode pensar em sua sobrevivência, já pulou de um barco e está em busca de outro seguro que não o deixe a deriva.
Se a fantasia é nosso filtro com a realidade, pois não há real possível de simbolizar, ela posiciona o sujeito dividido diante do objeto que causa seu desejo numa relação de inclusão/exclusão, alienação/separação. “Que queres?” pergunta Jacques Cazotte por meio de seu “Diabo Enamorado”. A pergunta sobre o desejo sempre é diabólica. Nossa resposta também.
Interrogo-me se precisamos mesmo responder a essa pergunta. Penso que podemos enfrentá-lo, olhando nos olhos do diabo e não responder completamente a suas demandas. Colocar em cena uma questão singular. Se o diabo (desejo) pergunta: “Que queres?” Há a possibilidade de se escolher outra posição subjetiva na fantasia em relação ao Outro. Diante do goze! A resposta pode ser: quando quiser e se quiser. Diante do trabalhe! Há uma escolha de como trabalhar. Diante do ame! Há a escolha de não amar ou de amar para além do amor.
O desejo se constitui pela falta, se constitui na relação com o Outro. Ora busca-se satisfazer pulsões de desejos originados dessa divisão, outras vezes, para negar essa mesma divisão constitutiva há o imperativo de realizar o desejo do Outro em nós. Para qual desejo dizer sim ou não, é uma escolha!

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

O que a Antropologia tem a dizer à Psicanálise?





Para alguns pesquisadores, a pergunta: "O que a Antropologia tem a dizer à Psicanálise" pode soar confusa ou, até mesmo, estranha. Contudo, aqueles que fazem um bom uso da clínica e dos textos freudianos sabem e gostariam que a Antropologia tivesse muito o que dizer à Psicanálise.

No editorial da Revista, Denise Maurano celebra: "Neste décimo quarto número, o leque de assuntos enfocados está bastante diversificado. Temos a honra de abrir com um importante artigo de Alexandre Fernandes Corrêa intitulado O labirinto dos significantes na cultura barroca, no qual a Antropologia dialoga com a Psicanálise, trazendo como efeito uma importante contribuição tanto para a área de Estudos Culturais, quanto para a chamada Psicanálise em extensão. Tal artigo nos é especialmente caro por conta de aproximar-se bastante dos estudos que empreendemos sobre o tema e que motivou, anos atrás, o nome de nossa revista. Nele o autor a partir de um processo de pesquisa sociocultural, toma para si a tarefa sugerida por Lacan de realização de uma história cultural do significante, no caso, o significante barroco, buscando situar sua função na sociedade contemporânea e, mais precisamente, no imaginário social latinoamericano".

É um instigante convite e um belo brinde ao trabalho de parceria entre os pesquisadores do acontecimento psíquico e os pesquisadores do acontecimento cultural. Espero que esse trabalho de parcerias faça de nossas escutas um lugar possível de construção simbólica. Contribuição à Psicanálise em extensão, mas também à Psicanalise no campo da escuta clínica, se levarmos a sério o campo significante e sua "história cultural" apontada pelo leitor de Lévi-Strauss, Jacques Lacan.
Click na imagem da revista e tenha acesso ao artigo integral.
Boa leitura!

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

A Foraclusão do Sujeito


Cirurgia para os males emocionais
Benedict Carey

THE NEW YORK TIMES

Leonard, um escritor que vive nos arredores de Chicago, se recusava a entrar no chuveiro, até que se tornou completamente incapaz de tomar banho ou escovar os dentes.Ross, um adolescente que cresceu em um subúrbio de Nova York, tinha tanto pavor de bactérias que regularmente passava sete horas seguidas debaixo do chuveiro. Ambos foram diagnosticados com transtorno obsessivo-compulsivo grave, ou TOC, e durante anos não conseguiam sair de casa.Mas eventualmente eles saíram, e viajaram em grande desespero para um hospital em Rhode Island, para uma cirurgia cerebral experimental na qual quatro buracos profundos do tamanho de uma ervilha foram queimados em seus cérebros.Ross e Leonard foram colocados em uma espécie de máquina de ressonância magnética que emite feixes de radiação no crânio. Estes feixes atravessam o cérebro, sem causar danos, exceto nos pontos onde os feixes convergem. Nestes pontos, a radiação queima pedaços microscópicos de tecido cerebral em circuitos que costumam apresentar uma atividade excessiva em pessoas com TOC grave.Hoje, dois anos após a cirurgia, Ross está com 21 anos e cursando uma faculdade.– A operação salvou minha vida – disse ele.O mesmo não pode ser dito sobre Leonard, 67 anos, que se submeteu à cirurgia em 1995.– Não houve nenhuma mudança – lamentou. – Eu ainda não saio de casa.Os dois homens pediram que seus sobrenomes não fossem usados para proteger sua privacidade.Evolução A grande promessa da neurocirurgia no final do século passado era de que novas técnicas seriam capazes de revolucionar o tratamento para problemas psiquiátricos. Mas sua primeira aplicação prática não é novidade alguma. Trata-se de uma versão sofisticada e precisa de uma abordagem antiga e polêmica: a chamada psicocirurgia, em que médicos operam diretamente no crânio.Na última década, mais de 500 pessoas se submeteram à cirurgias cerebrais para problemas como depressão, ansiedade e até mesmo obesidade, na maioria das vezes como voluntários em estudos clínicos.Os resultados foram tão animadores que este ano, pela primeira vez desde que a lobotomia frontal caiu em descrédito em 1950, a Food and Drug Administration (FDA), agência norte-americana reguladora de equipamentos médicos, aprovou uma das novas técnicas cirúrgicas para casos graves de TOC.Embora não haja mais do que algumas milhares de pessoas que são prejudicadas o suficiente por problemas psiquiátricos para atenderem aos critérios rigorosos para este tipo de cirurgia, milhões de pessoas poderão procurar tais operações assim que as novas técnicas tornarem-se menos experimentais.Essa esperança, no entanto, vem acompanhada de enormes riscos e incertezas. Alguns psiquiatras e especialistas em ética médica afirmam que médicos ainda não sabem muito sobre os circuitos que estão adulterando, e os resultados são imprevisíveis: algumas pessoas melhoram, outras não sentem quase nada, enquanto poucos azarentos chegam até a piorar. Nos Estados Unidos, pelo menos uma paciente ficou incapaz de cuidar de si mesma após uma cirurgia que deu errado.Além disso, a demanda pelas operações é tão grande que poderia tentar cirurgiões menos experientes a oferecerem os procedimentos experimentais sem a supervisão e o apoio de centros de pesquisa.– As pessoas têm essa idéia de que o próprio progresso justifica as operações, e que se algo é promissor, então como podemos não usá-lo para aliviar o sofrimento? – explica Paul Wolpe, um especialista em ética médica da Universidade Emory, na Georgia.Poucos anos atrás, médicos consideravam a lobotomia frontal um grande avanço, lembra Wolpe, apenas para descobrir que a operação deixou milhares de pacientes com danos cerebrais irreversíveis.Muitas idéias promissoras na medicina encalham, acrescentou, “e é por isso que temos de avançar muito cautelosamente”.
Segunda-feira, 30 de Novembro de 2009

terça-feira, 24 de novembro de 2009

SEMINÁRIO DE PESQUISA


NUPPSAM Núcleo de Pesquisa em Políticas Públicas de Saúde Mental


Seminário de Pesquisa
O NUPSSAM convida a todos para o Seminário de apresentação e discussão dos resultados da pesquisa “Conhecendo a Rede Pública Ampliada de Atenção à Saúde Mental da Criança e do Adolescente no Estado do Rio de Janeiro: dimensões da exclusão”, realizada através de parceria entre o NUPPSAM/IPUB/UFRJ e Universidade de Columbia/NY, com apoio do Ministério da Saúde do Brasil e OPAS.

O Seminário será realizado no dia 14 de dezembro, das 9:00 as 12:30h, no Auditório Leme Lopes (IPUB/UFRJ), situado à Avenida Venceslau Brás, 71 – fundos – Botafogo – RJ.


Este estudo foi desenvolvido em quatro localidades do Estado do Rio de Janeiro e permitiu mapear a rede ampliada de atenção à saúde mental de crianças e adolescentes. Ao todo, 525 instituições dos setores da saúde/saúde mental, educação, assistência social, justiça e direitos responderam ao questionário para levantamento de informações sobre estrutura, serviços oferecidos em saúde mental infantil e juvenil e em outras áreas, percepção das necessidades em saúde mental, encaminhamentos mais freqüentes, principais barreiras ao cuidado e outros temas relevantes.


A avaliação de uso de serviços por crianças e adolescentes com necessidades em saúde mental tem sido uma estratégia importante para fundamentar a montagem de sistemas de cuidados compatíveis com as realidades locais e com o princípio da intersetorialidade. No estudo em questão, os resultados apontaram a presença de ações e de profissionais diretamente relacionados à saúde mental nos diferentes setores públicos investigados, corroborando a hipótese inicial de que a necessária expansão do atendimento à saúde mental de crianças e jovens não poderá se restringir à oferta de serviços altamente especializados, nichos de excelência de um só setor.

Entretanto, a existência destas ações e profissionais só virá a constituir uma rede se uma direção pública puder ser afirmada e partilhada por todos. A noção chave desta pesquisa é a de uma rede pública ampliada de atenção à saúde mental da infância e adolescência que, esperamos, possa contribuir para o aprofundamento e expansão das diretrizes da política nacional de saúde mental infantil e juvenil.

PROGRAMAÇÃO

9h as 12:30h - Rede pública ampliada de atenção: bases para construção de um sistema integral de cuidado em saúde mental infantil e juvenil

Cristiane Duarte - Divisão de Psiquiatria da Infância e Adolescência da Universidade de Columbia/NY
Maria Tavares Cavalcanti – IPUB/UFRJ

Debatedor: Pedro Gabriel Delgado – Ministério da Saúde
Coordenação: Cristina Ventura – Nuppsam

sábado, 14 de novembro de 2009

O ÓDIO, O MAL, A MORTE...




A morte é o destino da vida... Todo o trabalho com a palavra é de fazer este destino chegar no momento certo. Toda a impossibilidade de simbolizar a castração nos leva ao pacto erótico com o ódio, o mal e a morte. Esta última pelas vias da crueldade e destruição. O exercício diabólico deste pacto pode ser encontrado como função das cenas odiosas, na sociedade, por exemplo, nas agressões que subjazem os sistemas paranóicos de controle social, nas eleições de um grupo que determina eliminar/odiar outro, nas guerras entre gangues, em seitas religiosas que elegem o suicídio de seus membros. Atos e discursos que se sustentam no laço engendrado pelo mandado da eliminação do outro grupo eleito a odiar/eliminar. No texto Situação da Psicanálise e formação do psicanalista em 1956, Lacan, no meu entender, aponta o ódio como fonte de investimento tal, capaz de permitir que identificações coletivas silenciem o sujeito na “conquista do poder” ao ponto de produzir, na identificação ao líder, uma sujeição capaz de produzir também o tirano. Sobre o ódio nessa função do grupo Lacan afirma:
“Numa busca de saber, uma certa recusa que se mede no ser, para-além do objeto, é o sentimento que agrega mais fortemente a tropa: esse sentimento é conhecido, sob uma forma patética; nele se entra em comunhão sem comunicar, e ele se chama ódio”(Lacan;1956/1998:482).

Na psicose, singularmente na paranóia, a eleição de um objeto de investimento de ódio também produz a dupla perseguido-perseguidor. Assim, apresento aqui inquietações de uma pesquisa que, neste primeiro instante, se interroga sem pretensões de fornecer respostas, mas formular com o maior rigor possível a questão norteadora de um tempo de investigação que se inicia.

PRIMEIRAS APROXIMAÇÕES
J. Lacan introduz a figura do Kakon (inimigo interior) para falar da agressividade em três momentos de sua obra. O primeiro uso do termo se dá quando analisa o ato de ódio encenado no “crime imotivado” pela paranóia de Aimée, caso clínico de sua tese intitulada Da psicose paranóica em suas relações com a personalidade (1932) . Retoma o termo num segundo tempo, em Formulações sobre a causalidade psíquica (1946) e, finalmente, o faz trabalhar no momento em que se dirige diretamente ao assunto em A agressividade em psicanálise (1948).
No primeiro instante, em 1932, no caso Aimée, a lógica da agressividade e do ato criminoso de sua paciente é desvelada no processo de sua própria cura, nos afirma o autor. Sofrente de uma paranóia de autopunição, diagnosticada assim por Lacan, Aimée só finda seu delírio quando recebe a punição de ter agredido violentamente uma famosa e respeitada atriz. Ela mesma escrevia e nutria ambições literárias. No decurso de sua análise, suas identificações apontam para o fenômeno no qual as imagens de seus ideais transformam-se posteriormente em fonte de ódio e perseguição, Lacan salienta assim que “a mesma imagem que representa seu ideal é também o objeto de seu ódio” (Lacan; 1932/1976:230)
As ameaças de morte contra seu filho eram recorrentes em sua crença delirante, assim como as ameaças sofridas de tirá-lo de seus cuidados. Posteriormente, será sua irmã mais velha quem assumirá seu lugar de mãe nos cuidados de seu filho. Irmã que se recusará a ter de volta o convívio com Aimée. Primeira fonte de identificação que ocupa o lugar de perseguidora. Na “sucessão das perseguidoras” sua amiga mais íntima ocupará o lugar de endereçamento de seu ódio.
Aimée se interroga sobre “Quem eram os inimigos misteriosos que pareciam estar perseguindo-a” (Lacan;1932/1976:146). Sua agressão contra a atriz, numa tentativa de “matar a doença objetivada” (Ibid:216), é o momento no qual Aimée “leva a cabo o ato fatal de violência contra uma pessoa inocente, na qual vê o símbolo do inimigo interior” (Idem), o Kakon.
Afinal, qual a “história cultural desse significante”? A figura do Kakon nos remete à mitologia grega representada por Pandora, primeira representante da mulher bela e má. Zeus teria inserido o engano na vida dos homens, através da bela mulher, para enfatizar o mal inevitável - o bem (Kalón) deve permanecer num convívio dialético com o mal (Kakon). O Kakon então, se torna o “inimigo interior”, o mal que habita no homem. O “ódio de si” que habita em cada um de nós.
O tempo que Lacan destina à compreensão da tendência agressiva se dá em Formulações Sobre a Causalidade Psíquica (1946) quando o conhecimento paranóico é mencionado na medida em que “a loucura é um fenômeno do pensamento” (Lacan; 1946/1998:163) e então propõe um retorno a Descartes em sua obra Meditações, mas temos ainda outra obra deste cartesiano intitulada As paixões da Alma na qual aproxima o bem do amor e o mal do ódio. E é justamente essa aproximação que gostaríamos de investigar.
Neste texto Lacan recupera várias questões do caso de Aimée, como uma espécie de um tempo destinado a compreender algo de sua lógica delirante: “tudo isso pelo qual o alienado, através da fala ou da pena, comunica-se conosco” (Lacan; 1946/1998:168) diz ele, buscando o nó do discurso, de suas significações, na medida em que na psicose tudo é signo.
Prossegue na organização dos pontos de estrutura do delírio de sua paciente. Já no primeiro ponto trata da questão do ódio quando aponta “a linhagem das perseguidoras” como a repetição da “personificação de um ideal de malignidade contra o qual sua necessidade de agressão vai crescendo”(169-170), e observa que Aimée “tendeu em sua conduta a realizar, sem reconhecê-lo, o próprio mal que ela denunciava”(170).
A figura do Kakon é retomada aqui para pensar na significação do ato delirante e assim busca novamente o trabalho de Paul Guiraud para junto com ele afirmar que “não é outra coisa senão o Kakon de seu próprio ser que o alienado procura atingir no objeto que ele fere” (176). Conseqüentemente Lacan chega às questões especulares da constituição do sujeito no campo da dialética identificatória e se detém no registro imaginário para recuperar a dimensão da alienação própria ao estádio do espelho, seu nó imaginário e o que ele carrega de mortífero. Recupera então a noção freudiana da pulsão de morte e do narcisismo e conclui que “no limiar do desenvolvimento psíquico, eis aí ligados o Eu primordial, como essencialmente alienado, e o sacrifício primitivo, como essencialmente suicida: ou seja, a estrutura fundamental da loucura” (Lacan; 1946/1998:188)
A noção de Kakon é retomada dois anos depois, em um momento para concluir, novamente atrelada às referências ao caso Aimée. Trata-se do texto de Lacan intitulado A Agressividade em Psicanálise (1948) no qual retoma, mais uma vez, a referência a Freud em seu conceito de pulsão de morte para colocá-lo no cerne da noção de agressividade no que se refere à economia psíquica. Argumenta que para pensar sobre a tendência à agressão é necessário introduzir a noção de libido e localiza que tais tendências se mostram fundamentais nas psicoses paranóicas.
Afirma então, citando seu caso Aimée que “o ato agressivo desfaz a construção delirante” (Lacan; 1948/1998:113) e pontua que “o diálogo em si parece constituir uma renúncia à agressividade” (Lacan; 1948/1998: 109). Retoma, portanto, a noção de Kakon para introduzir uma reflexão sobre o primeiro tempo da dialética das identificações, centrada no Estádio do Espelho. Discute os fenômenos da “organização original das formas do eu e do objeto” (Lacan; 1948/1998:113) e recupera mais uma vez a dimensão paranóica do eu. Afirma ser necessário, para compreender a agressividade, buscá-la nessa encruzilhada estrutural em relação ao “formalismo de seu eu e de seus objetos” e conclui: “essa relação erótica, em que o indivíduo humano se fixa numa imagem que o aliena em si mesmo, eis aí a energia e a forma donde se origina a organização passional que ele irá chamar de seu eu” (Lacan; 1948/1998: 116). Portanto, a estrutura paranóica do eu se mostra quando “o sujeito nega a si mesmo e acusa o outro” (Lacan; 1948/1998: 117).
Nesse sentido, Lacan questiona a “incidência despedaçadora na imago da identificação original” (Lacan; 1948/1998: 118) quando sucumbe à persistência dos “maus objetos internos” e localiza “o extremo arcaísmo da subjetivação de um kakon” no campo original da “formação primária do supereu” (Lacan; 1948/1998: 119). Aqui temos a relação entre o investimento odioso nas figuras que antes foram objetos eleitos de identificação.
Ao final do Seminário 3: As Psicoses (1955-1956), Lacan apresenta três etapas da foraclusão para pensarmos a lógica do delírio, são elas: 1. Cataclisma imaginário; 2. Desdobramento separado e investido por todo o aparelho significante e 3. Após o encontro, a colisão, com o significante inassimilável, trata-se de reconstituí-lo. A impossibilidade de inscrição e, conseqüente deriva em busca de reparar o dano pela foraclusão do significante primordial impõe ao sujeito psicótico o fracasso da relação amorosa, pois que, nos diz Lacan: “para o psicótico uma relação amorosa é possível abolindo-o como sujeito, enquanto ela admite uma heterogeneidade radical do Outro. Mas esse amor é também um amor morto” (Lacan; 1956/1988: 287).
Freud e Lacan delineiam um caminho possível no estudo da paranóia quando sinalizam a anterioridade do ódio ao amor como formulação teórica para compreensão da constituição do sujeito. Freud afirma, no Caso do Homem dos ratos (1909), que: “o ódio, sobretudo, conservando-se suprimido no inconsciente por ação do amor, desempenha um grande papel na patogênese da histeria e da paranoia” (Freud, 1909/1987) e Lacan nos diz que “a psicose é uma espécie de falha no que concerne a realização daquilo que é chamado 'amor'. (Lacan, 1976). Essa falha, no que concerne ao amor, aponta para a linha que amarra o imaginário com o real, essa fenda do ódio, no qual não há mediatização simbólica possível que barre as figuras do mal, como os demônios, as bruxas, os feiticeiros e a malignidade de intenções e ações interpretadas assim pelo sujeito, revelando um Outro sem perda, mortífero, sem Lei. Cabe ao sujeito assumir literalmente “o ódio, que é o que mais se aproxima do ser”, ao qual Lacan denomina de “ex-sistir” (Lacan, 1955/1966) que se traduz pelo ódio primordial a toda alterização que implica a dialética alienação/separação. No campo dos discursos, que é o do laço social, o ódio se apresenta pelas vias da agressividade e da violência diante das figuras que encarnam o mal ou que apenas figuram índices da alteridade. Se o psicótico também é um sujeito dividido e se insere nos quatros campos do discurso, o ódio no interior do laço social pode fornecer subsídios para a construção da metáfora delirante, por viabilizar uma simbolização possível que compreende os investimentos do sujeito para dar conta da deriva atrelado a um Outro absoluto que goza dele.
Para concluir, retomo o que havia dito no início, sobre esse primeiro tempo desta pesquisa que se inicia, tentando pensar sobre qual aproximação pode ser feita entre os fenômenos paranóicos coletivos e os individuais. Ambos, com as devidas distinções, obedecem a essa captura da configuração primordial de uma identificação primeira do registro imaginário? Recuperando a reflexão lacaniana do início desta fala, sobre o ódio da sujeição dos tiranos que serve de investimento à união da tropa, é possível encontrar nesses fenômenos sociais alguma analogia com os fenômenos psicóticos no que se refere ao ódio endereçado ao que antes era fonte de idealização e identificação quando Lacan, nos dois casos, fala de algo impossível de simbolizar?

domingo, 9 de agosto de 2009

EM NOME DO PAI: “QUE QUERES?”


Curioso e enigmático isso que recebemos de herança daqueles que reconhecemos como nossos pais. Sentimento de pertença, território, vínculo, promessa, segurança, cobrança, metas, realizações, respostas, potência, sucesso, superação, realização... demanda incessante de amor e reconhecimento. Somos atravessados por uma interrogação que não cessa de nos questionar sobre quem somos e o que queremos. Se estão vivos ou mortos, não interessa, pois, de qualquer forma, materialmente presentes ou não, eles nos atravessam e como que de dentro de nós nos perguntam: Que queres? E ficamos tentando responder, mas por que temos que responder? Por que temos que ter uma resposta?
O tempo vai formulando uma resposta em forma de ficção, de uma história cheia de lágrimas e risos, ternura e vingança, dor e prazer... Com o passar do tempo vestimos outra roupagem, nossos sapatos ganham novos contornos, nossos olhos outros brilhos, o sorriso ingênuo e triste se mescla com a malícia. Que me importa agora responder àquela pergunta? A vida e minhas escolhas mostrarão (ou monstrarão) a resposta pela trajetória e o itinerário percorrido.
O tempo passado queria dar uma resposta, mas o tempo presente quer apenas viver e transmitir algo para o futuro. Simples assim, “que queres?”, se Édipo está sepultado, a resposta pode ser aberta, múltipla, singular, se Édipo persiste a resposta está presa ao enigma, presa ao desejo do Outro, ou seja, quero ser em conformidade ao seu Desejo, quero superá-lo, quero lhe dar uma resposta, para, quem sabe, você deseje atender às demandas que lhe dirijo.
Liberdade é conquista de uma travessia. “Que queres?”. Sou em conformidade ao seu desejo era a resposta do passado; O que quero? Resposta em forma de questão que ao mesmo tempo que se interroga, interroga ao Outro no presente, pois ao ter sido atravessado por sua herança, que lhe deu um lugar e um nome, precisa saber o que do Outro nele perdura, o que do Outro lhe faz estranho nele. Névoa fantasiosa que ao construir seu mito o coloca diante de um sono no qual tudo está nublado. A travessia se completa ao despertar do sono capturado pelo o que o Outro quer. Futuro... esse é com o Desejo do sujeito... e está aberto...

domingo, 2 de agosto de 2009

A DANÇA, A DOR E A PSICOSE


“Dançarei apenas porque isso me possibilita expressar minha personalidade. Quero ser uma personalidade para cumprir minha missão. Minha missão é a missão de Deus. Minha loucura é o meu amor pela humanidade. Não quero a morte dos sentidos. Sou aquele que morre quando não é amado ”.(Vaslav Nijinsky).

Gênio da dança e ao mesmo tempo um sujeito psicótico, Nijinsky mostra uma outra forma de habitar o próprio corpo. Como uma de nossas fontes de sofrimento, este bailarino propõe várias personagens para habitar seu corpo. Narciso e o Fauno foram alguns que puderam manter o corpo de Nijinsky unificado e embalado pela dança, seu meio de dar sentido às suas experiências. O delírio cumprirá, posteriormente, o papel da dança para Nijinsky, mas em outros sujeitos, a impossibilidade de simbolizar o sofrimento ou pela via da dança ou pela via do delírio faz esse corpo padecer de dor, uma dor física incurável.

segunda-feira, 20 de julho de 2009

O SABER DELIRANTE


"Con estas precisiones observamos un cortocircuito ya que, al poner el delirio en el lugar del S2 -es decir, del saber-, nos muestra que todo saber es delirio y el delirio es un saber. Escuchando lo que afirma Lacan sobre lo interesante de la invención de saber, el psicótico se presentaría como el delirante que no retrocede ante la elaboración de saber (recuerden, por otra parte, que también dice que el analista no debe retroceder ante el psicótico), con el elemento de delirio que hay siempre en esta invención. (...) El señor Bunge, por ejemplo, piensa que Freud era un delirante. Hay asimismo muchas cosas delirantes en Newton, quien le dedicaba más tiempo a la alquimia que a las matemáticas y se apasionaba descifrando el libro de Daniel y el Apocalipsis en la Biblia.(...) Y es que era un hombre del siglo XVII, que se apasionaba descifrando el significante de la Biblia para conocer el futuro. Sin duda siempre hay algún riesgo en la ciencia, dado que puede ser un delirio".

segunda-feira, 13 de julho de 2009

MENSAGEM AOS FORMANDOS DE PSICOLOGIA


“O que a Psicanálise nos ensina, como ensiná-lo?” É a pergunta que S. Freud e Jacques Lacan se fazem sobre o ensino deste saber. Essa foi também a pergunta que sempre me fiz ao entrar na sala de aula. Como ensinar psicanálise aqui, na Universidade, no curso de Psicologia, num terreno paradigmático e epistemologicamente tão distinto? É certo que fazemos uma diferença grande entre ensino e transmissão, tanto quanto entre saber e conhecimento. É certo também que a formação referente à Psicanálise se dá alhures.
O que ensinar no que se refere à Psicanálise, em uma sala de aula no curso de Psicologia? Escolhi o caminho aberto para mim por minha análise pessoal. Deixar que minha paixão e meu desejo tivessem lugar na minha função de professor. Escolhi, para sustentar essa função, ter prazer ao desempenhá-la. Mas devemos ser éticos para não cair na sedução e na aliança desonesta que empobrece o ensino e inviabiliza toda e qualquer transmissão.
Fiz ainda outra escolha. Uma escolha que vai contra nossos narcisismos. Escolhi sustentar uma posição rigorosa e singular. Meu objetivo era alcançar um trabalho teórico e abrir mão de ser reconhecida pessoalmente, como pessoa “legal” e “boazinha”, pois sabemos dos ganhos secundários desses sintomas.
Inicialmente, por ser muito firme e incisiva fui apelidada de “professora brava”. Sei que despertei em muitos de vocês muita angústia e, como conseqüência, a raiva inerente que todo sujeito vive em relação ao objeto que lhe nega o acesso fácil ao prazer.
As aulas prosseguiram e uma mudança de olhar e posição foi abrindo espaço para o estudo/trabalho em lugar da angústia. Da angústia do não saber, veio o desejo de saber. Desejo esse que encenou uma busca singular em cada aluno. Recebi, então, um novo apelido “amor de transferência”. Bem, não preciso explicá-lo. É necessário apenas frisar que como toda transferência a relação não é serena e tranqüila e os afetos proliferam em sua extensão, o que estimula a nós, professores, uma busca por um manejo possível que desperte no sujeito, a partir de uma oferta, o desejo de seguir em frente, em direção à sua verdade que pode e deve ser distinta do desejo que habita a função de professor.
Estava preocupada não só em ensinar uma teoria, mas transmitir algo que é atravessado por ela, mas que evoca um saber, um saber que não é a soma de conhecimentos, um saber que recupera o sujeito em sua dimensão ética e política. Tentei ensinar um conhecimento e atravessá-lo com a transmissão singular de uma experiência.
Piera Aulagnier diz que “viver é experimentar de maneira contínua uma situação de encontro”. Por encontro ela entende uma relação entre duas singularidades que inscrevem algo para além das aparências. Uma relação que, em nossas aulas, explicitavam uma dinâmica complicada por encenar uma resistência e ao mesmo tempo um encontro profícuo.
Entretanto, outros desencontros não viabilizaram nosso encontro. No momento no qual vocês decidiram me incluir nessa festa, estava eu implicada em minha formação permanente. Há algo aqui bom de ser pontuado. No momento que a turma se forma, ou seja, inicia um caminho na Psicologia enquanto profissão, a professora de vocês se coloca no lugar de estudante.
Minha saída da Instituição para ir buscar continuidade da minha formação por meio de um Doutorado, me colocou em distância no espaço e no tempo, mas espero que signifique algo que sempre tentei transmitir a todos. Nossa formação é permanente, nunca estamos prontos e formados.
Mas algo mais impediu o nosso encontro, além das datas, pois desde o dia 06 de julho estou com atividades no Rio, a semana anterior a minha partida foi marcada por tudo aquilo que aprendemos com a Psicanálise. Somos barrados por uma Lei, não somos TODOS, inteiros e nem perfeitos. Adoeci e fiquei de cama com uma terrível virose na semana da minha viagem. Eu não pude me despedir, mas talvez seja um desejo de não dizer adeus, um desejo de dizer que estou aqui por perto e que podem contar comigo nessa caminhada em busca de uma formação permanente, ética e honesta.

Sucesso a todos!
Agradeço o reconhecimento.

Com carinho,
Adriana Cajado Costa

Rio, 14 de Julho de 2009